Crianças rueiras e o aprendizado da coletividade numa favela do Rio

Gizele Martins

 

A rua é o lugar que mais marca a minha infância. A rua é o grande espaço de convivência na favela. É nela que conhecemos os vizinhos, que conversamos por horas e horas com quem passa, é nela que brincamos, que dividimos os brinquedos, que brigamos, que caímos e nos machucamos, é nela que construímos a amizade, é ali que aprendemos a descobrir também o que é a infância, e não é qualquer infância, é a infância favelada, periférica, negra, nordestina, uma infância popular e coletiva.

Voltar a memória sobre esse tempo e lugar é lembrar das ruas cheias de terra, cimento, do poste de madeira, da chegada do paralelepípedo, do trabalho coletivo dos adultos na hora do mutirão para construção de uma, duas, três casas, da vizinha que acordava cedo e varria toda a rua e juntava todo o lixo, é lembrar da minha bisavó que aguava suas plantas logo cedo, do bêbado da rua no bar da esquina, da vizinha gritando pra gente não correr muito para não machucar, das fofocas diárias, da festa de casamento que fechava toda a rua, da correria que era eu avistar minha avó voltando do trabalho à tarde, na altura da Av. Brasil, e correr ao encontro dela, é lembrar do sol raiando e da noite chegando e os gritos das tias para pararmos de brincar, tomar banho, jantar e ir dormir.

Eu diariamente acordava cedo para ir à escola, aos 3 anos estudei no prédio que virou depois a associação de moradores de uma das favelas da Maré, depois, já aos 7 anos, fui para o Ciep, ele fica ainda hoje bem próximo à minha casa, bem ali na divisa da favela entre Baixa do Sapateiro e Nova Holanda, duas favelas bem antigas da Maré.

Nesse Ciep, incentivavam tanto o trabalho coletivo, juntos fazíamos horta, cuidávamos da biblioteca, da videoteca, a gente se dividia em grupo para verificar o portão da escola, encapar os livros que ganhávamos. No esporte nos dividíamos em grupos para brincar de pique alto, vôlei, queimado, ou seja, a partir destas e de outras atividades coletivas tenho certeza que aprendíamos a pensar sempre coletivamente, além de aprender a cuidar das nossas coisas que, também, eram do outro.

Tenho certeza que tudo isso me fazia chegar na minha rua, na minha casa de uma forma melhor, me fazia uma criança melhor, que pensava nas minhas tarefas na hora de juntar e arrumar os meus próprios brinquedos para não deixar mais trabalho para a minha avó, sabendo pedir emprestado o brinquedo aos amigos e amigas, sabendo também dividir os poucos brinquedos que eu ganhava da patroa da minha avó.

Ao passar do tempo, essa rua se tornou algo mais de passagem do que de convivência, talvez por causa da correria do tempo: estudar, trabalhar, encarar o mundo da adolescência e da vida adulta que nos torna menos coletivos e mais voltados a buscas individuais de estudos ou sobrevivência. Ao passar do tempo, essa rua também começou a me trazer memória de uma vida muito dura, violentada pelo Estado e pelo racismo, é fato que guardo isso na memória também, e me revolto todos os dias por saber que muitas crianças hoje não são tão livres para conviver nessa rua hoje.

Mas, tenho certeza, a minha infância rodando a rua e as ruas da Maré junto aos meus e minhas vizinhas, amiguinhas e amiguinhos, me fez pensar sempre na experiência da coletividade no dia a dia da vida adulta. Isso se reflete tanto na profissão que escolhi – que é a comunicação comunitária –, quanto nos trabalhos de militância que faço. São parte daquilo que aprendi nas ruas, nas escolas, com os vizinhos, com o mutirão dos adultos, com a senhora que sempre varria a rua, com os amigos e amigas que me emprestavam seus brinquedos, com os brinquedos de segunda mão que eu ganhava e emprestava também aos amigos e amigas.

Terminando essas rápidas memórias da minha própria infância, posso dizer, com toda certeza, que a rua nos ensina. Nela aprendi a viver com o outro e com a outra, aprendi que eu deveria também cuidar dela porque ela era e é minha e do outro, aprendi que a coletividade é um caminho que devemos seguir e cultivar por toda a vida e em qualquer espaço. É a rua que nos abre a criatividade, que faz com que a gente produza toda essa variada cultura favelada, é a rua que ensina a cada dia que devemos ter a garantia do lazer, que somos favela e que temos uma cultura hoje tão criminalizada pela cidade.


Sou GIZELE MARTINS, moradora da Maré, jornalista formada pela PUC-Rio, com mestrado em Comunicação, Educação e Cultura pela FEBF/UERJ. O Conjunto de Favelas da Maré localiza-se na Zona Norte do Rio de Janeiro. A Maré é formada por 16 favelas com aproximadamente 132 mil moradores. Hoje, atuo em diversas atividades dentro das favelas do Rio: Rolé dos Favelados; cursos de comunicação comunitária e sobre história das favelas, além de coordenar o Maré 0800, uma atividade de rua que realizamos há dois anos na Maré e que inclui doações de roupas, brinquedos e livros. Nosso objetivo é trabalhar a comunicação comunitária na rua, entregamos as doações em troca de um papo sobre direitos humanos, gênero, política, racismo, favela e assuntos afins.


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